Se é pra ser sincero, assumo que não gosto dessa vida. Talvez eu seja um insatisfeito que se mata na labuta, sonhando com coisas que nunca poderá alcançar. Não invejo aqueles que passeiam em iates e passam férias no Caribe, mas me agradaria muito viver às margens da lei e da ordem, como os hippies que moram na praia e encontram na simplicidade o real significado da felicidade. Por mim, poderíamos simplesmente voltar para o Éden, aquele jardim magnífico onde vivia Adão antes de Deus inventar Eva, que por incrível que pareça, deixou uma marca eterna em todas as mulheres que habitam essa Terra.
Não encarem isso como ofensa, longe de mim, mas não é verdade que a mulher pode ser a fortuna ou a desgraça de um homem? Foi assim mesmo que aconteceu na época da criação. Eva foi a fortuna de Adão. Companheira que findou a solidão daquele homem naquele imenso paraíso, mas também foi a sua desgraça, pois conquistou sua confiança, guiou-o pelos caminhos que o levaram para longe de seu pai e de quebra engravidou dele; duas vezes. Em resumo: Adão foi deserdado, precisou trabalhar o resto da vida e ainda sustentar dois filhos, até que um matou o outro, mas isso já é outra história.
Essa conversa deveria ter significado algo, mas a única coisa que eu fiz mesmo foi demonstrar uma teoria maluca onde Eva é a grande meretriz da História da Humanidade. A verdade é que quando carregamos uma culpa, temos o costume de transferi-la para as costas de um terceiro e no meu caso, a vítima foi Eva.
Ao contrário de mim, Euclides não transferiu a sua culpa, mas assumiu bravamente ela por inteiro. Não sei dizer se foi realmente por coragem ou autopiedade. Balançou a cabeça positivamente para todas as acusações proferidas por Janeth. Talvez eu tenha errado em acreditar que tenha sido coragem ou autopiedade, talvez Euclides tenha aceitado toda a culpa por submissão. Acredito ter sido totalmente mortificante para o seu ego, mas convenhamos que de tão mal alimentado com o passar dos anos, é até difícil acreditar que tenha se manifestado. Apesar de não saber mais detalhes, acredito que foi nesse mesmo dia que ele decidiu fazer o que sempre foi bom em fazer: abandonar. Apesar do ato simples que pode parecer o de assumir uma culpa, á isso não parecerá simples em momento algum na vida de Euclides. Repito: ele sempre foi bom em abandonar. O abandono é o eterno retorno da sua História, é o que traz à tona toda a metralha e tudo o que não pode desaparecer, assim como acontece na ressaca do mar.
Euclides abandonou a sua tirana Janeth acreditando ter-lhe feito um grande favor - não abandonando - casando-se com ela. O abandono trouxe de volta a força do seu ego e junto com ela a euforia da liberdade. Largou tudo o que tinha; o que não era seu e até o que era seu por direito. Deixou para trás também seus filhos, que apesar de serem "seus", eram cópias fiéis de Janeth; pequenos tiranos.
Olhares vagos dizem mais que qualquer palavra de desprezo
quarta-feira, 24 de novembro de 2010
segunda-feira, 13 de setembro de 2010
Euclides já foi jovem
E foi assim que nasceu o primeiro filho de Euclides: sem pai. Sempre foi um garoto irresponsável, libertino e galanteador. Não tinha talento pra coisa alguma, mas sabia fazer muito uso da palavra. Apesar da má fama, era querido, um badboy engraçado. Era estimado pelas crianças, pelos velhos que sempre auxiliava em um serviço aqui ou lá, e até pelos pais das garotas que o queriam longe de suas filhas. Algo realmente sem explicação.
O que não esperava ele, é que a brincadeira de repente tivesse ficado séria demais e agora, Marília estava lá, fitando-o com aquele olhar endagador, cheio de lágrimas, prestes a despencar de seus olhos como a água que despenca de uma cachoeira. Euclides não conseguia pensar em nenhuma solução inteligente para o seu problema. Ele era apenas um garoto e Marília, uma garotinha.
- O que vamos fazer? - Marília perguntou a Euclides, visivelmente desesperada.
Euclides não respondeu e apenas lançou a Marília um olhar que era misto de medo e pavor, se é que seja possível. A primeira coisa que passou em sua mente é que seria obrigado a desposar Marília, mas não era isso que ele desejava para sua vida. Ela era muito bonitinha, muito docinha, muito bobinha. Sem falar que Euclides não conseguiria passar a sua vida inteira na sua pacata cidade natal. Ele era um garoto destinado às grandes cidades, às grandes pessoas, a grandes sucessos. Ao menos, era assim que sentia.
Precisava de alguma forma se livrar de Marília e sua gravidez, mas como? Simplesmente não havia como. Mas havia uma forma de Marília e sua gravidez serem livradas de Euclides. E junto com essa forma, descobriu Euclides que não era um garoto tão sem talento assim.
O que não esperava ele, é que a brincadeira de repente tivesse ficado séria demais e agora, Marília estava lá, fitando-o com aquele olhar endagador, cheio de lágrimas, prestes a despencar de seus olhos como a água que despenca de uma cachoeira. Euclides não conseguia pensar em nenhuma solução inteligente para o seu problema. Ele era apenas um garoto e Marília, uma garotinha.
- O que vamos fazer? - Marília perguntou a Euclides, visivelmente desesperada.
Euclides não respondeu e apenas lançou a Marília um olhar que era misto de medo e pavor, se é que seja possível. A primeira coisa que passou em sua mente é que seria obrigado a desposar Marília, mas não era isso que ele desejava para sua vida. Ela era muito bonitinha, muito docinha, muito bobinha. Sem falar que Euclides não conseguiria passar a sua vida inteira na sua pacata cidade natal. Ele era um garoto destinado às grandes cidades, às grandes pessoas, a grandes sucessos. Ao menos, era assim que sentia.
Precisava de alguma forma se livrar de Marília e sua gravidez, mas como? Simplesmente não havia como. Mas havia uma forma de Marília e sua gravidez serem livradas de Euclides. E junto com essa forma, descobriu Euclides que não era um garoto tão sem talento assim.
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domingo, 8 de agosto de 2010
O casamento de Euclides II
Nascia mais um dia de garoa pela janela do quarto de Euclides. Com o travesseiro por cima da cabeça, ele ignorava o toque do despertador. Achava-se impaciente naquela manhã e só de imaginar ter de olhar a cara de Janeth no café-da-manhã, seu estômago embrulhou-se.
Casou-se por interesse e nada mais. Foi a clássica união da fome com a vontade de comer. Janeth já beirava os trinta e ainda estava na prateleira. Euclides não tinha nada além da sua beleza jovial e seu sorriso encantador. Como nem tudo é perfeito, Janeth cansou-se de não ser amada e Euclides cansou-se de nem tentar. Se aturavam dia após dia, conversando apenas o trivial e se vendo quanto menos fosse possível. Dividiam uma casa, uma cama e um filho. Nada mais que isso; todo o resto pertencia a Janeth. Euclides continuou tendo nada além de seu sorriso encantador, pois a beleza jovial já havia expirado o prazo de validade. Não era mais galante, nem cheio de si. Não tinha mais a velha mania de ser o maestro do tempo; na atual conjuntura, acontecia o contrário: o tempo era o maestro de sua vida. E as chuvas se tornaram cada vez mais escassas.
Casou-se por interesse e nada mais. Foi a clássica união da fome com a vontade de comer. Janeth já beirava os trinta e ainda estava na prateleira. Euclides não tinha nada além da sua beleza jovial e seu sorriso encantador. Como nem tudo é perfeito, Janeth cansou-se de não ser amada e Euclides cansou-se de nem tentar. Se aturavam dia após dia, conversando apenas o trivial e se vendo quanto menos fosse possível. Dividiam uma casa, uma cama e um filho. Nada mais que isso; todo o resto pertencia a Janeth. Euclides continuou tendo nada além de seu sorriso encantador, pois a beleza jovial já havia expirado o prazo de validade. Não era mais galante, nem cheio de si. Não tinha mais a velha mania de ser o maestro do tempo; na atual conjuntura, acontecia o contrário: o tempo era o maestro de sua vida. E as chuvas se tornaram cada vez mais escassas.
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domingo, 11 de julho de 2010
Recordar é viver
Há dias na vida em que você precisa parar e olhar ao redor. Sentar no chão e examinar minuciosamente tudo o que acumulou durante o passar dos anos. Papéis, cartas, fotos, boletins da época de colégio, o presente de um ex-namorado, lembranças de uma viagem, enfim, tudo aquilo que ocupa um grande espaço no seu mundo. Não importa quanto tempo vai levar, é uma experiência única. Existem recordações que ficam guardadas durante muito tempo, até você esquecer que elas existem, mas no momento em que você as descobre, causam um turbilhão de emoções, tanto boas quanto ruins, mas que funcionam como uma retrospectiva que te mostra que o tempo realmente corre em mão única, sem dar chance de voltar ou consertar coisa alguma; que o que não tem remédio, remediado está e sofrer não vai fazer diferença, só vai fazer você perder muitas coisas que a vida ainda pode te proporcionar.
Nem tudo deve ser poupado. Algumas coisas devem ir parar no lixo. Quem precisa de provas velhas? Canetas que não funcionam? Cds arranhados? Uma caixinha de música que já nem tem mais bailarina? Jogar coisas fora é o primeiro passo para dar um novo passo na estrada do tempo. É o sinal de que uma reforma íntima começou. Dar fim ao antigo e buscar o novo. Mas não se livre de tudo. Guarde ao menos uma caixa, bem no fundo do seu armário com tudo o que te faz lembrar de momentos especiais e pessoas especiais. Um dia quando se sentir triste, essas recordações te darão forças pra seguir adiante e viver novos momentos que podem se juntar aos antigos, não só dentro da sua caixa, mas no seu coração.
Nem tudo deve ser poupado. Algumas coisas devem ir parar no lixo. Quem precisa de provas velhas? Canetas que não funcionam? Cds arranhados? Uma caixinha de música que já nem tem mais bailarina? Jogar coisas fora é o primeiro passo para dar um novo passo na estrada do tempo. É o sinal de que uma reforma íntima começou. Dar fim ao antigo e buscar o novo. Mas não se livre de tudo. Guarde ao menos uma caixa, bem no fundo do seu armário com tudo o que te faz lembrar de momentos especiais e pessoas especiais. Um dia quando se sentir triste, essas recordações te darão forças pra seguir adiante e viver novos momentos que podem se juntar aos antigos, não só dentro da sua caixa, mas no seu coração.
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segunda-feira, 5 de julho de 2010
Papo qualquer coisa
É engraçado como a gente descobre que nunca é maduro o bastante; que nada que você construiu sobreviveu à sua ignorância.Quem morre feliz não foi sábio; pois não soube refletir nem no fim da vida que nunca foi maduro o bastante para ser feliz. É difícil para alguns poder entender a cabeça de alguém, só que mais difícil do que isso, é poder entender e não poder ajudar.Quanto mais a gente vive, mais a gente morre; com a exceção dos pobres de alma.Viva e deixe viver. Talvez descobrir o mistério que envolve a vida só seja bom quando você não puder mais vivê-lo. Será que existem aqueles que enxergam a hipocrisia, a degradação da alma, a devastação dos sentimentos, e acabam entendendo que a vida não é um privilégio? Para certas pessoas, a vida é um castigo.
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Reflexões sobre a vida real
quarta-feira, 16 de junho de 2010
Mente sã.
O meu passatempo preferido sempre foi pensar. Depois que aprendi a escrever, virou escrever. Mas nunca achei suficiente; queria desenhar, cantar, dançar, enfim, ter um talento especial. Pouco tempo depois, meu passatempo preferido passou a ser observar. Foi daí que percebi que muitas pessoas não pensam e outras até escrevem, mas sem pensar. Agora, toda vez que penso, me sinto especial.
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quarta-feira, 9 de junho de 2010
Um casal
Ela disse não, ele também disse não.
Falaram ao mesmo tempo e sobre a mesma coisa.
Pararam de fumar e voltaram a beber. Viajaram juntos, dormiram juntos e acordaram separados. Dividem o mesmo carro, mas só ele dirige.
Gostam de comer, mas só ela cozinha. Acreditam em Jesus, mas não em Deus.
Não choram vendo filmes e não gostam de ler livros. Ele come o cereal e ela toma o leite.
Ele dá o pão e ela põe o queijo. Ela lava a roupa e ele veste.
Ele dorme fora e ela usa a cama. Não tem filhos ou animal de estimação.
Não estimam um ao outro. Ele volta a fumar e ela não para de beber.
Não têm família. Ele tem amigas, ela tem amantes.
Falaram ao mesmo tempo e sobre a mesma coisa.
Pararam de fumar e voltaram a beber. Viajaram juntos, dormiram juntos e acordaram separados. Dividem o mesmo carro, mas só ele dirige.
Gostam de comer, mas só ela cozinha. Acreditam em Jesus, mas não em Deus.
Não choram vendo filmes e não gostam de ler livros. Ele come o cereal e ela toma o leite.
Ele dá o pão e ela põe o queijo. Ela lava a roupa e ele veste.
Ele dorme fora e ela usa a cama. Não tem filhos ou animal de estimação.
Não estimam um ao outro. Ele volta a fumar e ela não para de beber.
Não têm família. Ele tem amigas, ela tem amantes.
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